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sábado, 12 de março de 2011

Menino de Engenho



"Menino de Engenho"

Era 11 de setembro de 1959, em um lar humilde, casinha de taipa no Engenho Sociedade, município de Timbaúba - PE, nasci. Cresci com os meus pais não alfabetizados mas trabalhadores e honestos, verdadeiros espelhos para minha vida.

Aos 6 anos de idade me colocaram na escola, não sei bem se era uma escola mas era uma casa onde uma senhora começou a ensinar-me na carta de ABC. Lembro-me do seu nome, Crizelite (madrinha Nita), por ser comadre e vizinha dos meus pais. Com ela comecei a aprender as primeiras letras, as primeiras palavras, as primeiras frases.

Meu pai admirava cantadores de viola e na feira livre, aos domingos, quando via eles cantando, vendendo seus folhetos, não deixava de comprá-los. Em casa, sentado ao meu lado, ele ouvia toda a leitura, se eu errasse logo falava que não era daquele jeito que se lia aquela história mas quando acertava ele alegre dizia: Poi num é qui meu fio sabe lê de mermo". Assim comecei a gostar da leitura sem saber que aquilo era literatura de cordel da qual gosto até hoje.

Um certo dia a madrinha Nita falou para o meu pai: Cumpade, compre o 1º livro Nordeste para esse minino! E ele com poucas condições, trabalhador da palha da cana fez um esforço e comprou o livro. Depois veio o 2º, o 3º e o 4º livro, todos Nordeste. Li e reli todos mais de uma vez, fiz tantas cópias das lições que aprendi também a gostar de escrever.

Todas as noites, à luz do candeeiro, lia a lição do dia para meus pais, só não sei quantas palavras errava, pulava ou não sabia ler ainda, mas como eles não entendiam, gostavam de tudo o que ouviam.

Passei a escrever cartas para familiares e a pedidos da vizinhança, não sei se o texto ficava claro, mas sei que a letra era feia, porém sentia prazer ao fazer isto.

Um dia tomei um susto. A madrinha Nita que me ensinara durante tantos anos foi morar em outro engenho, fiquei triste sem saber com quem iria continuar estudando ou se era hora de acabar com um sonho.

Meus pais me encaminharam para outra professora, D. Mauricéa, com esta fiquei pouco tempo. Ela dizia que eu já sabia muito, lia tudo e que precisava de alguém que soubesse muito mais. Trabalhei na roça, na casa de farinha manual, experimentei cortar cana, só nunca estudei numa escola de ensino regular.

Mais tarde veio a Natália (Ná), jovem, cursando o 3º ano de magistério para dar aulas aos filhos dos moradores do engenho, eu já tinha 15 anos e todo feliz fui estudar novamente. Ela tinha uma maneira diferente de ensinar, andava na sala, falava, rezava, cantava, escrevia no quadro, olhava tudo o que se fazia. Tinha um caderno de anotação, um de classe, um de casa, outro de prova, era tudo diferente. Como os alunos estavam sendo alfabetizados e eu já sabia mais, ela me ensinava de outra forma, levava outros livros para eu estudar, os meus deveres eram diferentes. A turma era multisseriada e eu continuava empolgado. Comecei a admirar a professora, sem pensar que mais tarde ingressaria na mesma carreira.

Esta professora, também amiga da família começou a convencer meu pai de que eu não podia parar de estudar. Ele sem condições lamentava não poder mas ela aos poucos foi lhe convencendo até que ele lhe passou toda a responsabilidade sobre mim. Ela sem demora providenciou a documentação, conseguiu vaga, assinou matrícula e presenteou-me com o primeiro caderno de matérias para começar.

Era fevereiro de 1976, aos 16 anos de idade estava eu de pé na estrada caminhando 7km para chegar na escola da cidade. Ao chegar fiquei envergonhado pelos cantos, era um prédio grande, muita gente correndo, gritando, conversando, as aulas tinham começado havia uma semana. O diretor já sabia da minha história, logo percebeu quem eu era e levou-me para a sala de aula. Fiquei na turma dos fora de faixa e me senti atordoado no meio de tantos estranhos. Não entendia o toque nem também porque a cada sinal saía uma professora e chegava outra, uma falava de um jeito, outra de outro e assim era a manhã inteira. Minha timidez aumentava.

Comecei a perceber que teria que entender tudo aquilo, do contrário a situação pioraria.

Lembro-me da colega ao lado, Maria das Graças (Gracinha), a primeira pessoa que falou comigo. Suas primeiras palavras foram: "Tu chegasse agora, isso aqui é o horário. Toma, copia." Tudo seria mais claro se eu soubesse o que era horário. Calado, tracei aqueles quadros e comecei a copiar. Logo percebi que aquilo era o que cada professora ensinava, passei a entender o que se chamava de matéria. Venci a primeira etapa passei a me relacionar com os colegas e fui conquistando a amizade deles e a admiração das professoras. Ficava fascinado pelas aulas de Ciências e Português.

Cheguei a 8ª série, conclui o 2º grau sem nunca ter passado pelo pavor da reprovação. Meus pais simples mas felizes foram a minha formatura (dezembro de 1982), data que não apago da mente. Entrei no espaço da solenidade de paletó e gravata conduzido por Natália e nervoso com os aplausos. Fui o orador da turma.

Fiz vestibular no mesmo ano, passei para Biologia, entrei para a universidade sem nenhuma condição e meu pai mais uma vez preocupou-se ao ponto de dizer "quero ver como vai ser agora!" Buscou ajuda e eu mais uma vez aproveitei a oportunidade. Já era professor primário no mesmo engenho e no início do curso superior recebi o convite para lecionar Biologia na escola onde havia me formado, não recusei, enfrentei sem medo, o desejo de vencer e ter meios para estudar era muito forte. Neste período, já com emprego fixo, tomei outro susto, desta vez triste, perdi meu pai. Não desanimei, reergui a cabeça, reuni forças e prossegui. Veio o curso de letras, especializações e extensões.

Hoje, ao lado da minha mãe, dedico-me como posso ao que faço, gosto de ser professor e recordo a minha vida de "menino de engenho", não aquele menino de engenho de José Lins do Rego, mas aquele "matuto" que um dia sonhou, sofreu, lutou, acreditou e venceu.

Manoel Joaquim da Silva
Atividade realizada em curso de Formação Continuada com a profª Fávia Suassuna
(Recife-PE - Ago/2009)

5 comentários:

  1. Sem palavras...
    Talvez a música "Sonho Impossível", possa representar menos de um por cento daquilo que você venceu!

    Sonho Impossível

    Sonhar mais um sonho impossível
    Lutar quando é fácil ceder
    Vencer o inimigo invencível
    Negar quando a regra é vender
    Sofrer a tortura implacável
    Romper a incabível prisão
    Voar num limite improvável
    Tocar o inacessível chão
    É minha lei, é minha questão
    Virar este mundo, cravar este chão
    Não me importa saber
    Se é terrível demais
    Quantas guerras terei que vencer
    Por um pouco de paz
    E amanhã este chão que eu deixei
    Por meu leito e perdão
    Por saber que valeu
    Delirar e morrer de paixão
    E assim, seja lá como for
    Vai ter fim a infinita aflição
    E o mundo vai ver uma flor
    Brotar do impossível chão.

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  2. Realmente sua história é digna de um livro! Não para ser apenas admirado em uma estante,mas também para ser lido e servir de exemplo. Talvez se você não tivesse passado por todas essas dificuldades não saberia dar valor a superação. Parabéns!

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  3. Parabéns Manoel isso só prova que quando queremos podemos alcançar nossos objetivos e aprendemos a valorizar as oportunidades oferecidas.

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  4. Da sua competência e perseverança sempre soube e admirei, mas essa história que li é uma lição de vida. Me emocionei por demais, de verdade. Parabéns professor!!!

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  5. Para mim você é um grande exemplo professor.
    Você é um grande mestre, o que aprendi com você vou levar comigo para sempre.
    Fico muito feliz e grata por ter tido a oportunidade de estudar com você. Lembro-me de cada aula,de cada prova, de cada sorriso, de cada momento.Lembro-me de tudo que você proporcionou de bom a mim dentro daquela escola.
    Verdadeiramente, levarei seu testemunho de vida comigo para onde eu for e estiver. Sabe, sempre quando vem sobre mim pensamentos de que eu não sou capaz de realizar tal tarefa, lembro-me da sua história. O desejo do meu coração é que você continue perseverando até o final da caminhada. Com um sorriso no rosto, os livros nas mãos e com a certeza que tudo valeu a pena. Abração.

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